Dinamite no Nordeste, modelos de polícia de interação no Sudeste

23 de fevereiro de 2011

Dinamite no Nordeste


Nas últimas semanas, o Bom Dia Brasil, telejornal matutino da Rede Globo, tem mostrado uma realidade alarmante, para nós daqui de cima do mapa do Brasil: o deslocamento da nuvem de criminalidade para fora do eixo Sul-Sudeste. No último dia 15 de fevereiro, o Bom Dia Brasil, mostrou um apanhado de reportagens, um em cada Estado Nordestino, mostrando o aumento da criminalidade: alarmante índice de homicídios na Bahia, os assaltos a bancos em Pernambuco, a violência urbana em Fortaleza etc.

Veja a matéria do 15, no G1.com: http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2011/02/cresce-numero-de-assassinatos-no-nordeste-novo-territorio-da-violencia.html

Para o assunto não ficar detido apenas no seleto público do Bom Dia Brasil e por algum motivo, Deus sabe qual… (da Globo e da Record nunca se pode esperar ações despretensiosas) e escancarar a situação, o JN no Ar do dia 22 de fevereiro, foi até Campina Grande mostrar os recentes assaltos feitos com explosivos, em caixas eletrônicos e agências bancárias do Interior de PB, PE, AL, MA, entre outros.

Veja a matéria no G1.com: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2011/02/jn-no-ar-mostra-cidades-do-nordeste-onde-ladroes-usam-explosivos.html

Aqui por perto, no ano passado, houve uma tentativa frustrada por falha do explosivo, inclusive uma equipe do Bope esteve em Poço das Trincheiras/AL, para desarmar o artefato.

Veja matéria do Alagoas24h, falando sobre o roubo de explosivos em nosso Estado: Bandidos usam dinamites roubadas em Messias para explodir caixas eletrônicos

Modelos de polícia de interação no Sudeste

Este mesmo telejornal matutino da Globo, no dia 21 de fevereiro, mostrou uma sequencia muito interessante (assista no vídeo abaixo): uma revolta popular gerada pela morte de dois presos, levados pela Polícia Militar de Minas, em uma periferia de BH; os postos policiais soteropolitanos abandonados, já que o Comando da PMBA, diz ser mais útil o efetivo empregado em viaturas e por último, a comparação entre dois modelos de polícia de interação: o paulista e o fluminense.

Veja a matéria no G1.com – Cabines de segurança em Salvador viram quiosques e depósitos de lixo: http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2011/02/cabines-de-seguranca-em-salvador-viram-quiosques-e-depositos-de-lixo.html

Veja a matéria no G1.com – Instalada em comunidades, polícia anda lado a lado com moradores: http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2011/02/instalada-em-comunidades-policia-anda-lado-lado-com-moradores.html

Veja a matéria no G1.com – Policiais e moradores se enfrentam durante ocupação de favela em MG: http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2011/02/policiais-e-moradores-se-enfrentam-durante-ocupacao-de-favela-em-mg.html

Achei muito oportuno a comparação, até porque UPP é uma fase de transição de policiamento convencional para o comunitário, contudo no resgate de terreno perdido para o tráfico. O modelo paulista, “Made in Japan”, até se aplica a bairros problemáticos, mas após uma saturação e uma operação cirúrgica, já é possível implementar policiamento comunitário.  No Rio é diferente, é uma força de ocupação se fala em diálogo com a comunidade, mas com fuzil na mão, isso porque o Estado deixou rolar muita coisa, antes de uma postura séria. Creio que a Globo esteja com algum consultor em segurança pública, porque são matérias orquestradas, o caso baiano mostra como mais viaturas no modelo tradicional não são capazes de estancar a ferida da violência.

 

Agora me diga: o que o Nordeste vai fazer, se não puder usar o cano da doze para eliminar esses neguinhos metido a carioca e paulista que querem tocar o horror por aqui?

Mas talvez você seja daquele que nem tenha percebido, que o bicho-papão está batendo a porta, então leia o artigo de Reinaldo Azevedo (O BRASIL PRECISA PARAR DE MATAR PESSOAS E A LÓGICA! OU: ZÉ DIRCEU, COORDENADOR DE DILMA, COMO SEMPRE, ESTÁ ERRADO!!!), da revista Veja, mas saiba logo que ele é tucano. Reinado do artigo de Azevedo veja as tabelas, abaixo (Não queiram nem olhar Alagoas, vixe!):

MORTOS POR CEM MIL HABITANTES

ESTADO 2002 2007 VARIAÇÃO
Acre 25,7 18,9 -26,4%
Amapá 35,0 26,9 -23,1%
Amazonas 17,3 21,0 +21,3%
Pará 18,4 30,4 +65,2%
Rondônia 42,3 27,4 -35,2%
Roraima 34,9 27,9 -20,0%
Tocantins 14,9 16,5 +10,7%
REGIÃO NORTE 21,7 26,0 +19,8%
Alagoas 34,3 59,6 +73.7%
Bahia 13,0 25,7 +97,7%
Ceará 18,9 23,2 +22,7%
Maranhão 9,9 17,4 +75,7%
Paraíba 17,4 23,6 +35,6%
Pernambuco 54,8 53,1 -03,0%
Piauí 10,9 13,2 +21,1%
Rio G. do Norte 10,6 19,3 +82,0%
Sergipe 29,7 25,9 -12,8%
REGIÃO NORDESTE 22,4 29,6 +32,4%
Espírito Santo 51,2 53,6 +04,7%
Minas Gerais 16,2 20,8 +28,4%
Rio de Janeiro 56,5 40,1 -29,0%
São Paulo 38,0 15,0 -60,5%
REGIÃO SUDESTE 36,8 23,0 -37,5%
Paraná 22,7 29,6 +30,4%
Rio G. do Sul 18,3 19,6 +07,1%
Santa Catarina 10,3 10,4 +01,0%
REGIÃO SUL 18,3 21,4 +16,9%
Distrito Federal 34,7 33,5 -3,4%
Goiás 24,5 24,4 -0,4%
Mato Grosso 37,0 30,7 -17%
Mato G. do Sul 32,4 30,0 -7,4%
REGIÃO C. OESTE 30,4 28,4 -6,5%
BRASIL 28,5 25,2 -11,57%
Fonte – SIM/SVS/MS

A próxima tabela mostra a evolução em 10 anos (97-2007) do índice de homicídios por Estados, se você acha que Alagoas está no topo, porque começa coma letra A, então veja direitinho…

Na próxima tabela, não tem como ter dúvida, já que se fosse por ordem alfabética, Maceió não seria a primeira capital do ranking:

Bem, eu particularmente, acredito em alternativas ao policiamento tradicional. Reconheço a importância de se repensar na forma de fazer segurança pública, só não acho que podemos simplesmente importar o que foi aplicado lá fora. Aqui no Nordeste, e em especial nas cidades do Interior é preciso voltar urgente ao contato das velhas e boas subdelegacias, entretanto sem os excessos cometidos no auge da ditadura militar. O Nordeste precisa de uma polícia de interação, não pode ser frouxa, não pode vir com muita conversinha, é preciso um quê de atitude heterodoxa, meio xerifão, mas nada escrachadamente fora da lei.

Recentemente lendo os textos do Coronel Suamy Santana, PMDF, pude perceber que há como contextualizar respeito aos novos valores democráticos, basta traçar meios práticos de operacionalizá-los. Digo logo uma verdade, na hora de tornar real, o sonho cor de rosa do mundo perfeito você acaba sendo respingado pelos óbices do dia-a-dia, mas temos que ir a frente, mesmo que não sendo na solução final ou aquela na plenitude do que gostaríamos.

Entenda mais como a polícia mais pistoleira, ficou frouxa e de mãos atadas e pernas quebradas, lendo o post: Direitos Humanos para o policial de linha de frente

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Marginalização da juventude pela sociedade de consumo

28 de abril de 2010

Fui chamado a um ciclo de palestras sobre Economia e Vida, o enfoque foi as relações na sociedade capitalista. Para falar de Violência e a Sociedade de consumo, busquei algumas referências. Encontrei o texto do Dr. Maurício Daltro Costa, delegado de Polícia Civil da Bahia.

“Poxa!”, o cara tem uma consciência do drama social que não tem tamanho, digno de documentários como Notícias de uma guerra particular, suas percepções sobre o desarranjo social, as questões da estrutura familiar, do aliciamento de menores pelo crime organizado são um espelho do que acontece nos bastidores das instituições e das relações sociais.

Bem, deixo aqui o texto: Violência juvenil, resultado da marginalização da juventude pela sociedade de consumo.  Com os trechos que mais me marcaram em destaque:

Violência juvenil, resultado da marginalização da juventude pela sociedade de consumo

Mauricio Daltro Costa
Delegado da Policia Civil do Estado da Bahia
IntroduçãoA exposição das pessoas ao risco constante de ataques a sua integridade física e moral gera expectativas nas mesmas e, fornece-lhes padrões de respostas. Episódios truculentos e situações limites passam a ser imaginados e repetidos, como uma maneira de preparar o psiquismo para a idéia de que só a força resolve conflitos, tornando a violência um item obrigatório na visão do mundo que nos é transmitida. Cria-se a convicção tácita de que o crime e a brutalidade são inevitáveis, e que a pessoa deve estar preparada para eles e para reagir em conformidade. Esta familiarização com a violência, torna-a nosso cotidiano, um acontecimento corriqueiro, cuja proliferação indiscriminada mostra que as leis perderam o poder normativo e os meios legais de coerção, a força que deveriam ter e, nesta lacuna, vicejam, indivíduos e grupos que passam a arbitrar o que é justo ou injusto, segundo visões privadas, dissociadas de princípios éticos validos para todos. O crime é, assim, relativizado em seu valor de infração e os criminosos, ao invés de se sentirem marginais, agem com tranqüilidade, não se julgando fora da lei ou da moral, pois se conduzem de acordo com o que estipulam ser o preceito correto. Disseminam-se “sistemas morais” particularizados, que “legalizam” os atos praticados dentro da ótica moral e ética própria, podendo nelas uma atitude criminosa ser justificada e legitima.

Sabemos que não existe “moral relativa”, do ponto de vista de quem a professa, Crença ética é aquela que exige do sujeito uma posição quanto ao certo e ao errado e, no momento em que há duvida sobre o certo e o errado de certa ação, se está alterando os sistemas de crença. Ou seja, o justo e o injusto, o violento e o não violento, o humano e o desumano dispensam fundamentos racionais para determinar o modo como agimos e avaliamos nossas ações. Daí a dificuldade que enfrentamos quando tentamos convencer indivíduos adeptos da violência de que o recurso aos meios legítimos da justiça ainda é o melhor meio que temos de eliminar conflitos.

Em segundo lugar, a cultura da violência, valorizando a utilização da força, constrói uma nova hierarquia moral. O universo social simplifica-se monstruosamente entre fortes e fracos. Quem ocupa a posição de agressor é objeto de temor e ódio por parte da vitima e quem ocupa a posição de vitima é objeto de desprezo e indiferença por parte do agressor. Pouco importam as características físicas, psíquicas ou sociais dos sujeitos. Na montagem violenta o que conta é a força ou a fraqueza de quem ataca e de quem se defende. Nestas circunstancias os apelos humanitários caem no vazio. A lógica da brutalidade nivela por baixo os sentimentos. Termos como compaixão, consideração, culpa ou responsabilidade diante do semelhante desaparecem do vocabulário. A dificuldade de ultrapassar esse tipo de barreira emocional é uma das razões pelas quais se pode assassinar menores, desconsiderando o fato de que são crianças que estão sendo assassinadas.

Em terceiro lugar,na montagem social violenta perde-se pouco a pouco a noção do que é risco real ou potencial. A expectativa do perigo eminente faz com que as vitimas potenciais aceitem facilmente a sugestão ou a pratica da punição ou do extermínio preventivo dos supostos agressores potenciais. Todos se sentem vulneráveis, todos buscam atacar primeiro, todos vivem sob o temor da represália. O clima de insegurança e o vivido persecutório generalizam-se.

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