A tropa em busca de um divã

2 de março de 2009

Fonte: Site de Luiz Eduardo Soares

Na viela escura não havia ninguém. O silêncio era inquietante. Alguma coisa parecia estar errada. Comandar uma incursão policial numa favela carioca para apreender armas nunca é tranqüilo. Sobretudo quando se tem a exata medida da responsabilidade e o compromisso com a vida, inclusive dos suspeitos. Mas tudo tinha se tornado mais grave, naquela noite. Sentia que a morte rondava os becos, as ruas, as travessas. Algo no ar parecia soprar maus presságios. Talvez eu estivesse impressionado com o que tinha acontecido, na semana anterior: colegas executados em serviço. A tragédia estava chegando cada vez mais perto. Sentia o gosto do sangue.edna-parker-morre-mais-velha-do-mundo

Franzi a testa e cerrei os olhos para certificar-me de que a viela estava limpa. O momento era de solidão. Quem decide, sob tensão, entre opções que levam à vida ou condenam à morte, está sozinho. Só, como cada um de nós está diante da própria condição humana, a mortalidade. No alto da viela tinha uma abertura lateral, que conduzia a um beco. Minha dúvida era essa. No fundo, era só essa: será que os traficantes estão ali, à nossa espera, sem fazer qualquer ruído? Não seria típico deles, mas nada naquela operação era típico, nem a minha vida continuava sendo típica. O sinal mais preocupante era o silêncio dos cães. Não se ouvia nenhum latido, o que, numa favela, torna a situação quase irreal.

Se eles estivessem nos esperando numa emboscada, nós poderíamos emboscá-los primeiro, avançando sem que eles percebessem e os surpreendendo.

No exato instante em que hesitei e, de novo, me senti paralisado, uma senhora saiu da travessa lateral. Baixinha, negra, cabeça branca, ela caminhava decidida. Ao passar por mim, sussurrou: ‘eles estão lá, meu filho; é uma armadilha’. E seguiu adiante.

Respirei fundo e comentei com o sargento, atrás de mim: ‘Fomos salvos pela velhinha’.

— Que velhinha?, perguntou o policial.

— A velhinha que passou, carregando uma bolsa de supermercado.

— Não passou velhinha nenhuma, capitão. O senhor está passando bem?

Nenhum de meus companheiros tinha visto a tal velhinha. O fato é que os traficantes estavam mesmo preparados para nos emboscar, como descobriríamos mais tarde. Era uma armadilha. Real ou irreal, a velhinha nos salvou. Foi uma alucinação ou um sinal divino?

Respeito as convicções de cada um. Acho que essa é uma questão de foro intimo. Agora, o que eu sei ao certo é que não consegui mais dormir direito desde que meus amigos foram mortos e não consegui mais comandar operações em favela, desde o encontro com a velhinha. As mãos tremem. Suo frio. A vista embaça. Ouço vozes. O mais triste é que meus superiores acham que sou fraco e não levam a sério meu sofrimento.

Quando vejo colegas atirando, matando e acompanhando a morte de companheiros, sinto que, se eles permanecem frios e tranqüilos, inabaláveis, é porque alguma coisa dentro deles está abalada ou destruída. A resposta vem sob a forma da violência contra tudo e contra todos, até dentro de casa. Ou sob a forma de alcoolismo, dependência de drogas. Conheci alguns que pareciam ter o corpo fechado e o coração blindado, e que, de uma hora para outra, deram um tiro na cabeça.

Esse é o depoimento de um policial dedicado e corajoso.

Ler artigo na íntegra: Site de Luiz Eduardo Soares

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