Variedades (2009 a 2007)

Falácia entre bons e maus

DE LIMA, Wagner Soares[1]
wagnersoaresdelima@yahoo.com.br

Minha reflexão inicia pelos questionamentos feitos por amigos meus, que ainda se encontram na Polícia Militar, eles se auto questionam sobre suas atuações como policiais e valores éticos concernentes a isso. Além de serem constantemente bombardeados, nos ambientes em que convivem fora da Corporação, sendo eles tão contrários às práticas desonrosas, são acusados de participar em conjunto dos procedimentos operacionais padrões que mais se assemelham a assassinatos e extorsões.

E esses meus amigos costumam dizer, que querem fugir, sair; e eu pergunto: para onde? Eles costumam dizer que irão para instituições mais honrosas onde a atividade está vinculada a referências simbólicas de maior valor ético. E apontam-me categoricamente para o Poder Judiciário, a Medicina e o Magistério Superior.

Aos que dizem que querem ser delegados da Polícia Federal e da Polícia Civil não temos muito ao que comentar, porque o ambiente não é muito diferente da Polícia Militar no tocante a essas questões. Mas aqueles que dizem querer fugir de um meio mentalmente insalubre para serem juízes de direito, promotores de justiça e médicos salvadores da vida é necessário que eu traga um trecho da minha dissertação que fala sobre a Natureza da Polícia Militar[2].

 

Quem mata mais?

Não se pode deixar enganar por falácias que “demonizam” pessoas ou dadas instituições, “santificando” outras. É uma estupenda falácia dizer que policiais militares são maus e promotores de justiça, magistrados ou médicos são bons. Durante minha trajetória na PM de Alagoas eu vi de perto, policiais militares que eram exemplos de retidão, enquanto tive que amargamente conviver com médicos que disseram que não iriam salvar a vida de um marginal, na esdrúxula situação, em que eu policial estava lutando pelo contrário. Eu ouvi abertamente de promotor de justiça que ele queria ver sangue, bem como, pude ver descortinando o véu de idoneidade com um juiz de direito com o qual eu tratava, quando soube que era um aliciador de menores. Acompaho (especificamente) nesse quesito a opinião de Felipe Moura Brasil (2017[3]):

A maldade humana está relativamente bem distribuída em todas as instituições. Por isso, é tolice creditar os problemas da segurança pública à Polícia Militar, como insistem em fazer os acadêmicos e até policiais influenciados por eles. Tortura, corrupção e truculência não são privativas da PM (MOURA BRASIL, 2017).

Se faço uma devassa no profundo institucional da Polícia Militar, o faço por meio de minha própria experiência e deixo o registro como provável fonte de inspiração para outros que estejam, como eu estive, desorientados e confusos sobre sua atuação profissional. Não faço de outro contexto institucional, porque aí sim seria leviandade intelectual minha, pois não conheço os entremeios desses “universos” particulares. Mas posso afirmar com base no apanhado geral sobre instituições e reprodução cultural do inicio dessa dissertação, que ao investigar, usando metodologia próxima das que eu usei aqui, com certeza serão encontrados aspectos luminosos e sombrios das demais instituições e campos profissionais, assim como demonstrou Laffite (2002).

Afinal de contas, o padrão de desenvolvimento civilizacional masculino infundiu em todos os aspectos da vida humana inúmeros fundamentos que tendem hoje a um isomorfismo, o qual tem sido percebido na dinâmica da globalização impositiva. Não há quem não tenha sido afetado de alguma forma por esse padrão. Até o meio natural não humano tem sentido severamente as repercussões desse processo. Portanto, dentre os entes sociais, por onde for posto o foco de observação, serão percebidos traços desse padrão específico na Educação, na Ciência, na Cultura, nos Transportes, na Indústria, na Justiça, na Política, na Saúde, na Religião, por todo o lado dos sistemas sociais se verá esses aspectos.

Anteriormente comecei a esboçar uma arqueologia simbólica da atividade médica, posso afirmar sem constrangimento que ao prosseguir aprofundando os estudos, vai ser encontrado conexões do biofísico-social-espiritual, que sustentam práticas e relações de poder há muito tempo replicadas e cristalizadas.

Seria necessário um estudo estatístico rigoroso, porém tenho indícios que levam a supor que relativamente, ou seja, em termos proporcionais, médicos estão submetidos a uma maior probabilidade de se envolver em atos falhos de sua profissão nos quais o usuário do serviço venha a óbito. O que constataria que médicos têm uma maior probabilidade de se tornarem assassinos em decorrência da sua profissão.

A diferença é que os policiais têm marcadamente a intencionalidade como uma característica dessa situação esdrúxula, ou seja, existem mais policiais que por dolo praticam esse tipo de vilipêndio. É notoriamente sabido que clínicas de estética centros cirúrgicos de hospitais também são ambientes propícios para omissão homicida e nisso se ver a prática da imperícia e da negligência.

Porém assim como bons policiais e moradores de territórios periféricos estão amedrontados e ameaçados e não podem falar sobre as condutas criminosas de seus colegas ou das “autoridades” que circulam pelo bairro. Enfermeiros e instrumentalistas também, se quiserem ter uma carreira, não podem falar sobre o que acontece nos bastidores da atividade médica.

Portanto, aqueles que acreditam que Corregedorias de Polícia sejam instâncias institucionais altamente corporativas, deveriam fazer uma comparação entre o número de denúncias e punições. Creio que os Conselhos Regionais e o Federal de Medicina tem índices muito mais elevados de complacência e arquivamento de casos denunciados. Mas isso não se passa apenas com a Medicina, talvez exista instâncias de sanção ainda mais corporativas e fechadas, como se caixas-pretas fossem, creio que podemos dar este prêmio às Corregedorias dos Tribunais de Justiça e às Corregedorias do Ministério Público.

tatuagem-do-bem-e-do-mal-4-600x450

Os bonzinhos e educados também guerreiam

Hoje como membro da Segurança Institucional de uma Universidade pública, posso ver claramente esses aspectos sombrios/ocultos em nível institucional no meio em que atuo. Como já demonstrei, encontrar os aspectos específicos dos guerreiros entre àqueles vinculados à Segurança Privada seria até uma constatação óbvia, os vigilantes projetam a imagem dos policiais como se da mesma família fizessem parte. Mas o que para mim foi surpresa, mas depois entendi que não deveria ser, é que o ímpeto de guerra, do conflito, da posse pelo território está por toda parte entre os intelectuais acadêmicos que disputam posições como se de feudos cuidassem[4]. E é nesse ponto que percebo, o que Jung (2012a) dizia, sobre quanto mais um aspecto como esse é negado, mais ele irrompe o limiar entre a inconsciência e a consciência com mais força.

Peço realmente escusas, pela referência às disputas do meio acadêmico, mas não o poderia deixar de fazer, porque este trabalho nasce justamente da percepção da frustração desses em relação às suas investidas reformuladoras da polícia[5]. E como estive do “lado de dentro”, como um verdadeiro nativo da referida casta (tribo moderna), eu sou obrigado a esclarecer que um pesquisador de Universidade que propõe: por que vocês não fazem assim? Precisa ele mesmo perceber sua proposta, da forma como ele reage, quando dizemos, já que esse tema é conectado por que não publica ou o desenvolve em conjunto com “Dr. Fulano de tal”? Por que não aborda da seguinte forma e se afasta do paradigma corrente de sua área? Porque irá perder credibilidade, legitimidade e espaços do exercício de poder.

Exatamente, esses são os mesmos motivos pelos quais um policial mesmo regido pelos arquétipos do herói e do pai zeloso (o policial comunitário, o peace-officer) admite-se está sob a dinâmica hegemônica do guerreiro (guerreiro-caveira) e do aventureiro (caçador de recompensas). Ou seja, bons policiais se submetem a maus policias, porque o que estamos chamando de maldade aqui é o caráter de assertividade, onde significa jogar com as regras do campo, para usar termos do Pierre Bourdieu. Se professores universitários não fizerem isso entram no ostracismo e desempenham atividades mais trabalhosas, ganhando menos, são preteridos de boas oportunidades e excluídos dos círculos de influência. Assim também ocorre com os policiais.

Conclusão

Em todos esses campos profissionais, ser “santinho” pode significar o ostracismo e frustração. Ser esperto demais pode significar perder as amarras éticas para entrar num jogo de política, corrupção e, em alguns casos, tornar-se responsável por mortes. Na verdade, essa faceta ruim que pode ser vista nas profissões, diz respeito a essa característica nativa dos seres humanos, todos nós somos uma mescla do que se costuma classificar como bom e mau.. Lembre-se: demônios também são anjos, são os mesmos tipos de seres, que tiveram atitudes diferentes. Não há como suplantar isso de nós, apenas como harmonizar de tal forma que possamos conviver com o contraste.

Saibam meus amigos, onde quer que vocês decidam ir, lá estará o grande desafio de ser ético ou de sucumbir ao mal sistêmico. O mal que é operado por todos e por ninguém específico, como nos alertam Jung, Hannah Arendt, Theodor Adorno, Freud e Phillip Zimbardo é incomensuravelmente mais destruidor, porque ao perder a responsabilização pessoal, o agente faz como quer, na intensidade que bem entender.

Resistir a isso é papel de médicos, policiais, professores, juízes, promotores e de quem quer que seja. Lembrando, fazer isso mais do que em seu próprio círculo pessoal pode custar-lhe caro, pode custar sua posição dentro de seus grupos de poder. O que ao menos se espera, que em cada consultório, em cada gabinete, em cada viatura ou atendimento seja feito um esforço de fugir do padrão sistêmico e agir com a prudência necessária que se espera ao está diante de outro ser humano.

 

[1] Ecólogo Humano e Administrador. Membro da Segurança Universitária da UFPE. Mestre em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental (UNEB), especialista em Gestão Pública (UFAL), graduado em Administração (UFAL) e em Segurança Pública (APM/PMAL), capitão da reserva da Polícia Militar de Alagoas.

[2] Adaptado de dissertação de mestrado: http://www.uneb.br/ppgecoh/files/2017/06/WAGNER_SOARES_DE_LIMA.pdf. Publicado com post em Blog do Cidadão-SSP, em 14 de julho de 2018.

[3] MOURA BRASI, Felipe. “O perigo e a falácia da desmilitarização da polícia”. Blog Veja Publicado em 15 fev. 2017. Acessado em 01 set. 2017. Disponível em <http://veja.abril.com.br/blog/felipe-moura-brasil/o-perigo-e-a-falacia-da-desmilitarizacao-da-policia/&gt;.

[4] Cabe destacar uma parcela que não foi citada diretamente: parte da classe média e média alta, detentora do conhecimento sobre essas questões, que se sente compelida a fazer algo, mas seus colegas não podem lhe ajudar, porque estão muito ocupados “obtendo para si, aquilo que é considerado do outro”, como projetos e bolsistas fantasmas e lutas intermináveis por política interna institucional para saber quem controlará orçamentos pomposos, ou ainda como farão uma carreira política vinculada a luta pelos pobres (e por si mesmos) ou como farão para ganhar sem trabalhar muito.

[5] Tópico “A frustração dos acadêmicos” em “Contexto da propositura do trabalho” do Capítulo 1.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s