Variedades (2009 a 2007)

POR QUE O POVO DESEJA A INTERVENÇÃO MILITAR? DESEJA MESMO!?

O povo deseja a intervenção militar? Não, ele não deseja exatamente isso, ele deseja uma circunstância que lhe proporcione em questões práticas: poder de compra, emprego, segurança, direito de não ser morto em qualquer esquina, oportunidades de crescimento pessoal e dos mais próximos. Porém o que pode não está evidente são alguns motivos inconscientes. Entre eles o desejo pelo “pai da nação”, como único que possa garantir aquelas questões práticas.

 

A ordem jurídica democrática pode até funcionar mediante o acesso às memórias arcaicas do que os grupamentos humanos entediam por conselho de anciões, o que pela origem da palavra senado é o que ele representa. Mas ainda sim, nesses mesmos grupamentos primitivos, a figura do líder guerreiro é fundamental para a estabilidade gregária, tendo em vista, que aqueles que carregam o espírito guerreiro não seguem velhos de barba branca, por mais sábios que sejam; quanto mais quando esses senhores lhes parecerem os inimigos infiltrados em seu próprio território, patentemente corruptos. Nessa dada circunstância, não há o que se fazer para impedir, os de espírito guerreiro irão encontrar um símbolo, um ícone personificado de autoridade e derrubarão o conselho.

 

Não adianta desejar conquistar a massa de virilidade mental por símbolos e discursos de sabedoria ou prudência, esses sujeitos homens e mulheres são conduzidos por frases de comando que inspirem, sobretudo, dignidade e honra. Apesar de haver uma sobrevalência numérica de homens, não se iludam: muitas mulheres defendem esses mesmos posicionamentos. Espero que entendam, isso vale para os dois lados que se degladeiam atualmente, até porque se um lado tem simpatia com militarismo o outro se lança às ruas como militantes, os dois termos tem o mesmo radical (militia), porque se referem em suma, na profundidade, a mesma mentalidade, a pesar de se referirem, na superfície, a ideologias diferentes.

 

Na história recente, contra uma classe aristocrática corrupta, que tinha em Sarney seu símbolo maior, a tal classe representa em nossa analogia com Roma o Senado. Contra aquele senado, o Brasil escolheu um general jovem, bonito, inteligente: Collor. A classe corrupta decepcionada com a forma “injusta” que seria arrogantemente preterida de suas maracutaias, instigou o povo e Collor caiu. Aceitou-se o líder sereno em prol do milagre contra a inflação, e passou Itamar e FHC. Até porque, FHC era o sonho de que uma postura sóbrea ofertasse o equilíbrio para com os ricos sem esquecer dos pobres, mas o presidente esqueceu o sociólogo. E os escândalos de corrupção disseram ao inconsciente das pessoas: precisamos do general, do líder, do pai da nação e essa posição coube à Lula, quase como um Spartacus que fez acordos. Passados 14 anos, tendo percebido que o bom e generoso pai da nação, tinha seus próprios interesses e que, ao longo do tempo, seu grupo de “guerreiros” honestos não eram mais tão honestos assim e que a corrupção do velho “senado” (entenda da classe aristocrática inteira) havia se abraçado e até deitado com seus velhos militantes, ao ponto de trocarem peças íntimas, o povo parte novamente em busca do pai da nação.

Uma parcela do povo pensa que derrubou a “mãe protetora” porque ela era corrupta. Ainda que fosse, na verdade, o povo derruba porque não está pronto para mães protetoras, mesmo que sejam mulheres guerreiras, eles precisam desesperadamente do pai da nação, até porque eles gritam que são patriotas, ou seja, leais à pátria do pátrio poder. Mas o povo foi novamente instigado, assim como fora contra Collor, mas agora não eram apenas o coronealismos locais corruptos que estava frustrados, eram os grandes corruptores mundiais e não era, que esses não ganhavam com a trupe de Dilma, mas eles podiam ganhar mais sem ela. O que muitos não sabem é que internamente, no “exército dos militantes”, a mãe protetora e o pai guerreiro estavam se afastando e sem a legitimidade e a esperteza deste último, aquela primeira caí.

 

O pai da nação que eles querem não pode esperar as eleições, porque está muito vívida a memória de Lula desfilando no rolls royce, e mesmo que seja um general guerreiro ali sentado há sempre uma desconfiança se ele não virá a ceder aos caprichos do poder.

 

Essa questão entre o senado aristocrático e o general herói de guerra é muito bem documentado na história do império romano. Nós bem sabemos o mal que uma quadrilha de ladrões pode fazer no alto conselho, bem como o general pode fazer ao se tornar ditador. São os extremos de cada uma das formas de articular o poder central e que parecem ser remédios amargos uma para com a outra, ao menos no primeiro momento. A questão é o quanto estamos maduros para não se viciar no remédio e de cura passar a ser câncer.

Falando de Roma, realmente é possível ver no digno general contra a classe de corruptos no filme Gladiador.  Falando de escravos que se sublevam e tomam o poder pela luta armada, lembra Spartacus e, ainda sim, temos um “general” não oficialmente constituído de direito, mas de fato.

 

Tendo em vista o patrimônio histórico-cultural do brasileiro, o qual carrega partes sutis no imaginário coletivo oriundo de Portugal, África e América nativa e a yankee, ele tenderá, pelo menos por enquanto a rejeitar a “mãe protetora”. E de forma inconsciente, pode-se ter uma motivação interna para a rejeição à Dilma, bem como se rejeitou Heloísa Helena nas urnas e deve-se rejeitar mais uma vez Marina Silva. Esse é um debate que devemos ter mais adiante, porque não se trata de serem mulheres, mas de representarem um outro padrão de desenvolvimento civilizatório, onde naquela analogia primeira, às tribos antigas, ainda existe a figura do pajé ou da grande mãe xamânica.

 

O certo é que estamos à procura do pai da nação. Sobre os atributos particulares de ser herói e o guerreiro forte, para a parcela que exige a junção desses ao “grande pai” surge Jair Bolsonaro. Mesmo com retrospectos diferentes, podemos alinhar essa direção ao caso Trump nos Estados Unidos e Putin na Rússia. Mas não percebo como total unanimidade entre a população e isso permite a possibilidade, de algo como Macron da França, no Brasil. O que aqui, recairia sobre Ciro Gomes ou Álvaro Dias.

 

Bem, intervenção não é o mesmo que ditadura. Uma intervenção bem orquestrada nesse momento, deve apenas permitir que o candidato ideal dos interventores assuma o poder pelas eleições de outubro. E para os interventores que são generais de fato e de direito, esse candidato, pode ter certeza, não se trata de um ex-capitão “expulso” porque um dia desafiou a eles mesmos.

Mas se lembrem, quando você ver alguém gritando que quer a intervenção militar, ele não está no seu interior mais profundo dizendo exatamente isso, essa é a forma que ele encontra para expressar o desejo pelo pai forte, que ele perdeu e está órfão. Este mesmo órfão votou em Collor, chorou em 2003 com a posse de Lula, pede voto para Bolsonaro, pede intervenção e por fim apenas quer um colo ou abraço de um uma figura paterna freudiana que lhe diga: “está tudo bem, meu filho, eu vou te defender”. Defender de quem, ou de que? “Deles” que é um termo genérico que enquadra tudo ou todos que não lhe permitem ter poder de compra, emprego, segurança e oportunidades (que não despropositalmente é base da pirâmide de Maslow).

 

 


Nota do Autor sobre o uso sobre a abordagem típica da Ecologia Humana para abordagem de temas complexos da contemporaneidade

Um cientista social ou um ecólogo humano não pode simplesmente dizer: “eu não sei como eles podem dizer isso”, “que ignorantes!”. Quem diz isso é o militante partidário.

O cientista estudioso da espécie humana, pára, reflete e consegue fazer conexões e ao invés de apresentar uma análise como de costume, tece uma síntese com forte poder explicativo, simplesmente porque percorre as searas que a antropologia não se permitiu ir e abraça além dos aspectos típicos dela os ecológicos ambientais, mentais e profundos.

Por baixo da disputa das ideologias, existe um oceano de mentalidades com origens mais arcaicas e quiçá, com transmissão no nível genético ou morfogenético. O agente social não consegue reflexivamente explicar ao certo seus motivos inconscientes. E assim como foi dito na Escola dos Annales, há algo de longa duração que faz o rei e o súdito, no fundo terem a mesma base de ação. Ainda na História Cultural, Moscovici foi amplamente adotado para as representações sociais, até que no fim de sua obra ele diz, há temas universais indo em direção à linguagem do mythos (Morin) e do arquétipo (Jung).

Quando estudei a mentalidade guerreira e o padrão civilizatório masculino, do qual a expressão mais manifesta é o patriarcado, eu não sabia que isso traria partículas de interpretação de fenômenos sociais tão abrangentes. Mas Fritjof Capra já alertava sobre isso citando Riane Eisler. Realmente estou muito feliz por ter alcançado isso dentro de um programa de Ecologia Humana.

Nesse pequeno e humilde ilustração do poder de síntese explicativa que a Ecologia Humana Integral consegue oferecer ao entendimento de temas complexos, há o uso oportuno de Psicologia Analítica, Psicanálise, Sociologia Clínica, Ecofeminismo, Cinematologia, Análise Política, História e Antropologia.

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