Natureza da Polícia Militar, Opinião

Por que se mostra inútil para os formadores de opinião rivalizarem com os policiais brasileiros

Wagner Soares de Lima (*)

POR FAVOR, SENHORES ACADÊMICOS, NÃO ENGLOBEM TODOS OS POLICIAIS COMO ASSASSINOS.

Faremos uma breve análise a partir de um resgate dos elementos profundos do modelo institucional, tanto por regressão histórica e como por uma de natureza imagética, com o suporte de uma abordagem sistêmica do modus de fazer ciência multiparadigmática da Ecologia Humana, com o necessário suporte da Teoria Crítica.

Nem se iludam, atacar discursivamente os sujeitos policiais é uma tremenda perda de tempo. Ao fazer isso, vocês caem exatamente no jogo dos “donos do poder”, como diria Faoro [1]. Vocês estabelecem uma segregação psicossocial entre irmãos do mesmo povo, “dividir para governar”, é tudo o que eles querem.

Quem acha que os aliados venceram a Alemanha, está errado. Quem acha que os soviéticos conseguiram isso sozinhos? Também está errado. A Alemanha nazista foi vencida, sobretudo, pela “autosabotagem” exercida ocultamente por certos grupos e sujeitos do povo alemão que disseram em seus corações: Basta! Se quiserem mudanças nas forças policiais, terão que conquistar as mentes dos policiais.

Negros matando negros, porque a polícia brasileira é formada por pretos e pardos. Ela é uma forma contemporânea da institucionalização de uma ordem militar dos capitães-do-mato. Os policiais substituem historicamente e psicossocialmente os feitores, que foram dispensados de seus postos, com declínio das grandes monoculturas agrícolas [2]. Segundo o professor Líbano Soares da UFBA [3], eles são o homem branco [leia-se pardo] pobre e livre que gravita em torno do senhor de engenho.

Meus amigos, esse jagunço moderno é um ser dispensável.
Eles são tão vítimas quanto qualquer um popular de território subalterno.
Não são inocentes, mas nesse jogo, quem tem poder sabe como seduzi-los.
Dinheiro não é a única forma de fazer isso.

“Mas aos sujeitos milicianos da proteção social se opera o silêncio-controlador, dando-lhes espaços de vazão emocional. São, portanto, seduzidos por artimanhas simbólicas, que oferecem o uso de instrumentos sociais e organizacionais que permitem o contato com instintos primordiais da base evolutiva humana: guerra, sangue, adrenalina, caça, aventura, poder fálico, supressão dos efeitos do superego social, status na disputa homossocial. São prerrogativas muito empolgantes e cativantes. Quando você alerta a um policial que ele tem sido um operador de um mal social, ele pode até admitir, mas abandonar todo esse capital simbólico é difícil para ele” (DE LIMA, 2017).

É como arrancar parte da alma deles. Como desfazer uma construção histórico-evolutiva de milhões de anos em que ser homem de verdade é defender uma pretensa honra frente outros homens. Por isso são homens jovens matando homens [4], são nossas circunstâncias nacionais é que fazem ser além de homens jovens serem pobres e pretos. Eles irão relutar de todos os modos para continuarem a terem seu espaço de brincar de fazer guerra. Aliás, são guerreiros, não são? O que se pode pedir a eles? Que lutem. Não há como suplantar isso deles.

Mas há uma coisa difícil, mas não impossível de ser feita: deixar que esses guerreiros, continuem combatendo [5]. Mas ensine-os, quem é o verdadeiro inimigo. Mostrem-lhe alternativas de modos de combate. Não esperem adesão de todos e saibam que aqueles que forem por vocês convencidos, estarão lutando contra seus próprios parceiros-irmãos. É pedir muito para alguém lutar contra sua própria família. Lembrem-se de Arjuna, no mito narrado pelo texto hindu Bhagavad Gita [6].

Devo portanto, explicar porque enquadrar isso como um estudo ecológico. Essa é uma pequena amostra como estudos sobre os seres humanos, considerando-os como um dos atores de uma complexa rede de interações inter e intraespecíficas pode ajudar a encontrar respostas para os grandes problemas sociais da atualidade. Uma conjugação de Ecologia Humana, Ecologia Mental e Profunda nos levaram a algumas reflexões sobre o ambiente natural interior do ser humano com sérias consequências no mundo externo natural e construído. Uma condição mental humana, sobrevalorizada por um determinado grupo, compelindo-lhes a provocar o maior morticínio da mesma espécie de primata superior (o Homo sapiens) do planeta. Já que nós brasileiros nos matamos 4% a mais do que mataram os sírios nos mesmos cinco anos. Um ano de homicídios no Brasil é o equivalente a um ano de mortes da Europa, Oceania e Caribe juntos e ainda sobra espaço para incluir outras nações, um único país contra números de continentes inteiros.

Mais “Marielles” morrerão. O Estado cooptado pela corja de ladrões não está nem um pouco interessado em evitar que tais coisas ocorram. Os únicos que seriam capazes de evitar ataques de chacais, são leões. Vocês precisam da adesão de espíritos fortes para compensar tamanha potência de assertividade. É preciso bons policiais, para fazer frente a maus policiais. É preciso que eles queiram arriscar suas vidas em nome da vida do todo. Quem os convencerá disso? Vocês!? Com discursos de repudio? Terão que usar de empatia para com o diferente. Espero que ao menos tentem, porque se esses que ainda podem ser resgatados forem totalmente seduzidos para o “lado negro” da força, o Estado não terá polícias disfuncionais, será um Estado Policial. Se é que ele já não seja e não percebamos isso [7,8].

Post02

(*) Wagner Soares de Lima: Ecólogo Humano e Gestor de Segurança Universitária na UFPE. Mestre em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental (UNEB), Especialista em Gestão Pública (UFAL), Graduado em Administração (UFAL) e em Segurança Pública (APM/PMAL), Capitão da reserva da Polícia Militar de Alagoas, Autor e Fundador do Blog CidadãoSSP.  Currículo: http://lattes.cnpq.br/9551866737323674

 


Referências

[1] FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder: formação do patronato político brasileiro. 3a. ed. Revista. Ed. Globo: 2001.

[2] DE LIMA, Wagner S. e LIMA, Patricia S. de. Continuidade e persistência de comportamentos sociais: as práticas repressivas do estado brasileiro In: Anais do III Encontro Científico CulturaI, 2013. III ENCCULT – Volume 2 numero 1. Educação, Sociedade, Ciências Gerais, Cultura. Santana do Ipanema/AL. [Anais]. ISSN: 2316-802: pp 165-169.

[3] LÍBANO SOARES, Carlos Eugênio. Escravos, senhores e policiais: o triângulo da desordem no Rio de Janeiro de Dom João VI. Revista do Mestrado de História, ano II. Vassouras-RJ, 1999.

[4]  SOUZA, Monica Gomes Teixeira Campello de. Cultura da honra e homicídios em Pernambuco: um novo modelo psicocultural. Orientador: Prof. Dr. Antonio Roazzi.
Tese (doutorado) – Universidade Federal de Pernambuco. CFCH. PósGraduação em Psicologia, Recife, 2015.

[5]  DE LIMA, Wagner Soares. A natureza da Polícia Militar: História e Ecologia. / Wagner Soares de Lima. Orientador:  Juracy Marques. Dissertação (Mestrado em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental) – Universidade do Estado da Bahia. Departamento de Tecnologia e Ciências Sociais. PPGECOH. Campus III, Juazeiro, 2017.

[6] SWAMI, Srila Bhakti Aloka Paramadwaiti e ACHARYA, Sripad Atulananda. O Bhagavad-gita: A Ciência Suprema. São Paulo: Serviço Editorial dos Vaishnavas Acharyas / Instituto de Estudos Védicos, 2003.

[7] ALTHUSSER, Loius P. Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado. [Trad.: Joaquim José de Moura Ramos]. Lisboa: Editorial Presença/Martin Fontes, 1998.

[8] FRANCO, Marielle. UPP – A redução da favela a três letras: uma análise da política de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro. Dissertação (Mestrado em Administração). Universidade Federal Fluminense. Niterói: 2015.

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