Servimos com prazer, mas não para sermos “sacos de pancada”

22 de julho de 2011

Estou muito satisfeito, pela primeira vez vi a Festa da Juventude dar certo, em termos de organização, contudo, ironicamente a comunidade local sentiu falta da liberdade de diversão sem controles, sentiram falta do seu som que animava as baladas, mas gostaram da ausência do som do vizinho que os deixava dormir quando queriam. Sentiram falta da bebida quente servida em taças de vidro, porque ostenta sua riqueza, mas gostaram de saber que ao fim não haviam tantas garrafas que servissem de arma contra seus filhos. Sentiram falta da cocaína e dos inalantes que não conseguiram chegar com a mesma quantidade e preço baixo de antes, mas elogiaram, a presença constante da polícia.

Fico profundamente inconformado, que digam: “parabenizamos o trabalho de todos, inclusive da polícia, porém algumas ações da polícia foram excessivas”. Bem, tais ações, que antes não foram tomadas por omissão, incompetência ou medo, formaram-se um fator crucial para o êxito. Agora os agentes, que tiveram pulso suficiente para dizer todos os “não” necessários, principalmente para a classe abastada, afilhados de políticos, serão provavelmente crucificados.

Fiz meu trabalho e cumpri meu dever, se alguém vai lograr pontos com isso, bom para quem quer que seja. Estou pronto para servir, mas não para ser “saco de pancada”. Fico do lado de minha tropa, que tem sido seguidamente massacrada ainda pela indefinição de nossa situação perante a lei, defendemos os direitos da sociedade, que não nos reconhece como iguais, já que somos regidos por normas e regulamentos, que nos calam, prendem e nos alocam em serviços que ultrapassam, e muito, a carga horária constitucional para o trabalhador brasileiro. Cumprimos ordens e somos formados para atuar do jeito que fizemos, não cabe hoje ser hipócrita e dizer o contrário, enquanto nos ensinam o respeito aos direitos fundamentais das pessoas em salas de aula, desrespeitam os nossos nos corredores, quartéis e nos demais momentos.

Somos semi-escravos de uma sociedade que não nos reconhece e como tais, estamos felizes em servir, somente gostaríamos de não sermos agora usados como “bode expiatório”, único alvo de crítricas.

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Novela da Rede Globo reflete preconceito contra PM e GCM

3 de julho de 2011

Abordagem Policial:

As polícias de paletó e as polícias de farda

Assistindo a uma novela da maior emissora de televisão do Brasil, e uma das maiores do mundo, a Rede Globo, em dado momento uma personagem desacatava um delegado da Polícia Federal, que cumpria um mandado de busca e apreensão em sua residência, dizendo que era para ele prender “mendigos” na rua, e não importuná-la em sua casa, uma mansão de um grande banqueiro.

Surpreendeu a resposta do delegado na novela, pelo menos para nós, policiais, que disse que “não era guarda municipal ou policial militar” para fazer este tipo de coisa. A cena novelesca nos permite diagnosticar a visão que a sociedade possui das polícias brasileiras.

De fato, as polícias militares e guardas municipais costumam lidar com a parte menos favorecida da sociedade, os descamisados, “mendigos”, como disse a personagem. As instituições policiais fardadas enfrentam o crime das ruas, o tráfico de drogas das periferias, as desordens e conflitos cotidianos.

 

Muitas vezes, os próprios policiais tornam este tipo de trabalho um fetiche particular (lembrando o documentário Notícias de uma Guerra Particular), deixando inclusive de lembrar que o crime, qualquer que seja ele, também pode ser cometido pelos abastados. E que a probidade existe em larga escala entre os pobres. Acabamos contribuindo para a classificação de “polícia dos pobres”, e precisamos refletir até que ponto não somos, de fato.

A Polícia Federal e as polícias civis são melhores remuneradas que as PM’s em praticamente todo o Brasil. Principalmente pela proibição de reivindicação, e pelo efetivo maior das militares, a idéia de elite policial acaba se confundindo com a idéia de elite financeira. Isto se dá também na esfera tenebrosa da corrupção, onde o policial civil ou federal corrupto tem a oportunidade de achacar criminosos participantes de grandes quadrilhas, enquanto o policial militar corrupto tenta se favorecer circunstancialmente, dum motorista sem habilitação, por exemplo.

É mais ou menos daí que surge a diferenciação entre a polícia dos pobres e a polícia dos ricos, a polícia de farda e a polícia de paletó e gravata. Daí vem o interesse das pessoas perguntarem se a polícia civil ou federal tem mais “moral” que a polícia militar. Lendo “moral” como privilégios, tal como salários dignos e direito a se manifestar, diria que sim, mas se “moral” estiver no sentido ético, diria que lá e cá temos nossos percalços.

Leia nota de Répúdio do Cmt Geral da PMESP à Rede Globo