Precisamos de campanhas de vacinação

Porque a segurança pública não pode apenas prestar atendimento a pedido de caráter urgente do cidadão-usuário.

Nenhum serviço público pode permanecer apenas suprindo o usuário nos momentos em que esse faz pedido por prestação. Isso porque se os recursos operacionais estiverem todos alocados em aguardo dessa solicitação, corremos o risco de não ter a equipe apropriadamente especializada, ou então ter recursos subutilizados em um período e em outro, sobrecarregados.

 

Serviços que prestam atendimento crítico, como a saúde e a segurança pública, sempre terão demanda de urgência para ser suprida. Mas se os gestores públicos desse tipo de área de atuação não fizerem proativamente um planejamento de um serviço programado, antecipando-se às necessidades do usuário, ficarão reféns de eventos pouco previsíveis, sempre com gargalos operacionais. O chamado apagar incêndio, correndo ininterruptamente atrás do prejuízo.

A atuação policial tem características próprias, mas não deixa de ser um serviço público, que precisa, como todos os outros, utilizar-se mais e melhor de ferramentas da boa prática de gestão. Visualizemos um exemplo: uma guarnição de rádio-patrulha numa cidade de médio porte. Nós alocamos uma equipe de especialização mediana, para ficar pronta, esperando que o cidadão-usuário faça a chamada por um atendimento, quase sempre, em sua avaliação, de urgência. Uma guarnição que não sabe muito de nada, na verdade, sabe muito pouco sobre tudo, uma generalista, “pau-pra-toda-obra”.

É imprevisível para qual tipo de especialização será o chamado do usuário. Poderá ser de causas sócio-culturais tais como violência doméstica ou problemas com menores de idade. Talvez uma atuação mais enérgica, num assalto a banco ou repressão ao tráfico de entorpecentes. Ou então, numa negociação com reféns. Em outros momentos, logo após uma perseguição a pé a ladrões de estabelecimentos comerciais, há uma chamada para intervir na fiscalização de trânsito.

 

Isso posto, podemos perceber, que acabamos prestando um serviço de baixa qualidade, pois intentamos ser polivalentes no atendimento de urgência, um tipo atuação que não só exige especialização e experiência, tal como agilidade. Precisamos urgentemente oferecer serviços programados, que não permitam a evolução da demanda do cidadão para um atendimento crítico.

Tomamos a saúde como exemplo. O que seria do país, se toda estrutura do serviço estivesse baseada no atendimento de urgência e emergência, na construção de hospitais e na contratação de pessoal plantonista? Tal como a segurança pública, na saúde não se pode deixar de haver previsão do atendimento de urgência, mas não pode ser a única alternativa tática.

Imagine hoje, como estariam os hospitais, sem as campanhas de vacinação. As campanhas são ações planejadas para ocorrerem sazonalmente, por iniciativa da Gestão Pública e não inteiramente devotada à demanda por pedido do usuário. Os servidores envolvidos na sua operação geram uma enorme economicidade, se comparados aos que seriam necessários, para gerir o colapso dos postos de atendimento de urgência, abarrotados de pacientes com sarampo, catapora, rubéola, meningite etc., caso não ocorressem as mesmas campanhas.

 

Precisamos, na segurança pública, encontrar nossas soluções que se assemelhem ao intuito das campanhas de vacinação. Precisamos todos os dias lançar nas ruas guarnições de serviço diário, que servem ao atendimento a pedido, mas também precisamos por iniciativa própria, oferecer alguns outros serviços, que tenham como meta diminuir a demanda por atendimento de urgência.

A consultoria de segurança com interesse público é uma boa saída. Somos naturalmente os especialistas que podem ajudar a população com dicas de segurança. Orientação em muitos casos é bastante valiosa. Se na mesma região há dois postos de gasolina e um é mais assaltado que o outro, algo de errado eles fazem, nos procedimentos rotineiros. Talvez, acumulem mais apurado, antes de levá-lo ao banco. Caberia a uma equipe de polícia, lançada ao campo diariamente ou não, encarar a violência e a criminalidade nessa outra proposta de atuação. Proposta simples, como a de pedir a superintendência de trânsito que desative certos semáforos durante a madrugada, diminuindo as súbitas abordagens de roubo.

Outra faceta que pode ser melhor explorada, é a atividade de polícia administrativa, algo como as vistorias dos corpos de bombeiros ou vigilância sanitária, a polícia criminal  também deve impor àqueles cidadãos-usuários que geram situações que demandam maior alocação de recursos policiais, tais como promotores de eventos, critérios para o funcionamento de seus estabelecimentos, exigindo plano de segurança.

Além disso, é preciso reunir esforços, com delegação de poderes ou não, para que órgãos essencialmente de fiscalização, ampliem sua atuação de forma preventiva. Coibindo abusos, antes de demandarem atuação crítica. Por exemplo, a municipalidade é detentora de inúmeras prerrogativas nesse sentido, ao invés de despachar viaturas para um bar, diversas vezes na semana, por que não embargá-lo por não possuir autorização de funcionamento ou está infringindo os parâmetros legais para tal.

As atividades de polícia comunitária são todas direcionadas nesse sentido, agindo em rede colaborativa entre os diversos atores interessados na paz pública, antes que ocorram os ilícitos de maior gravidade. Como campanhas de vacinação, temos que estar mais próximos das crianças e dos jovens, o Proerd é um ótimo exemplo disso.

Atuando na ponta de combate direto ao crime, estamos estancando a sangria da convulsão social, um verdadeiro trabalho de enxugar gelo. Quando repartimos os recursos e direcionamos parte dele para a prevenção, estamos garantindo que limpamos o terreno hoje e amanhã o crime não terá capacidade de sujá-lo tanto como vem fazendo, fechando a torneira, ou a linha de produção que faz desembocar no seio da sociedade elementos dispostos a usar de meios ilícitos para arrefecer seus impulsos consumistas e desejos de crescer na vida.

Muitas outras ações podem cumprir esse papel preventivo, entre as opções já experimentadas estão: a formação de redes de auto-proteção entre residentes e comerciantes de uma determinada comunidade, projetos sociais que visam oferecer oportunidades a infância e juventude em situação de vulnerabilidade, medidas alternativas de resolução de conflitos, tais como mediação e conciliação. Projetos educativos em geral, no trânsito, na repressão ao uso do entorpecente, educação ambiental etc.

Por fim, não podemos deixar de elencar como providências a realocação das próprias guarnições de pronto-atendimento, de caráter repressivo imediato, para que em seu posicionamento inteligente, já pratique uma prevenção colateral. Estatísticas, gerando relatórios gerenciais capazes de subsidiar decisões. Um levantamento em relação a horários, locais e dias de risco. Uma realocação que seja capaz de romper barreiras da cultura organizacional, que prega um escalonamento dos recursos uniforme em todos os momentos e localidades.

Compreendendo que a segurança pública, no país, ainda está em processo de institucionalização, no tocante a uma padronização técnica do seu serviço e do estabalecimento das atribuições dos diversos entes, ou seja, ainda não temos um sistema único, que gerisse o todo, mesmo com os agentes em rede – compreendendo isso, – vemos que o processo de profissionalização e de racionalização dos procedimentos está em franca evolução. Contudo, os anseios sociais obrigam que haja uma aceleração. Caso contrário, teremos um colapso generalizado, que permeará as entranhas da sociedade influenciando a todos em outros níveis de relacionamento.

Referência: Gestão Operacional

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