O banco da praça

Esta história circula no meio militar, sem que saibamos ao certo sua origem e se realmente ocorreu, cada um que a conte diga que aconteceu em um lugar diferente numa época distinta. A primeira vez que ouvi, foi meu pai quem contou, quando estava no segundo ano de formação militar, eu desabafei das minhas contrariedades com o sistema em que estava tentando me adaptar, então ele me contou essa história, repassada para ele por um sargento monitor do curso de Aprendiz de Marinheiro em Olinda/PE, nos idos de 1966, como forma de fazer os neófitos entenderem como as coisas funcionam no quartel.

Hoje repito a história, entendendo que o ensinamento aprendido dela serve para compreender um dos aspectos do funcionamento não somente do militarismo, mas de inúmeras repartições públicas, quiçá empresas do país.

 

 

Meados da década de 60, a Escola de Aprendiz de Marinheiro de Olinda, estava para receber a visita, em inspeção, do contra-almirante, muita expectativa e os preparativos estavam congregando esforços de todos por ali. Um guarda-marinha recém saído da Escola Naval era o oficial de dia responsável pelo grande faxinão. O capitão-de-fragata, comandante da Unidade, mandou chamar o guarda-marinha e com a voz firme lhe chamou à responsabilidade:

 

– Preste bastante atenção, guerreiro. O almirante, toda vez que vem a nossa Escola, observa tudo, principalmente os canteiros, o meio-fio, a praça, ele gosta de tudo muito organizado e limpo. Por isso, resolva sua guerra, não quero saber de nada fora do lugar. Arranje um jeito para que tudo se mantenha na mais perfeita ordem até a vistoria dele. Entendeu!?

– Sim senhor, capitão!

 

Agora o guarda-marinha sabia que tinha que mostrar serviço, ele já havia percebido, que depois de toda faxina feita na Escola, em pouco tempo, tudo estava desorganizado devido o grande número de laranjeiras, os alunos que moravam na própria Unidade. Para solucionar o problema ele teve uma grande sacada: “Bem, como militar no quartel, quer serviço, botemos eles para trabalhar!”.

 

Com este intuito, o guarda-marinha chamou o sargento adjunto de dia e mandou que se recrutassem três alunos de folga no alojamento para acrescentar uma sentinela ao serviço e formar os quartos de hora. Feito, agora a Unidade contava com uma sentinela a mais, apenas para guarnecer a praça e impedir que se fizesse bagunça e arruinasse a faxina, principalmente a pintura dos bancos das praças, que haviam sido caiados e estavam ainda molhados. O que parecia estranho, devido a proximidade desta sentinela ao portão das armas, ou seja, um homem alocado de forma desnecessária, era justificado naquele momento pela importância da missão, já que o capitão-de-fragata, queria aparecer bem aos olhos do contra-almirante.

 

Na manhã seguinte, a Unidade recebe um comunicado de alta prioridade e urgente, ordenando que o guarda-marinha fosse imediatamente embarcado na fragata que estava aportada em Recife. Na verdade, o guarda-marinha que era filho de um oficial, e tinha seus conhecimentos no Ministério, tinha pedido para não ficar em terra, sabe como é, todo aspirante ou recruta gosta de emoção. O guarda-marinha ficou tão contente, que nem esperou a passagem de serviço, já foi ao gabinete do capitão-de-fragata e o informou do último comunicado. Autorizado, o guarda-marinha partiu deixando o finalzinho do serviço ao cargo do sargento.

 

Quando o primeiro-tenente chegou para assumir o serviço, percebeu no livro a alteração, da inclusão de uma sentinela a mais. Foi perguntar ao sargento adjunto, mas esse já não era mais o dia anterior, já havia sido rendido. Mas mesmo assim, respondeu ao tenente:

 

– Olha tenente, creio que isso deva ter sido ordem do comandante, já que em poucos dias teremos a visita do almirante.

-Então é melhor mantermos a alteração, chame o sargenteante e diga a ele que inclua essa sentinela a mais na própria escala.

 

Vinte e cinco ano depois, aquele guarda-marinha, já é capitão-de-fragata, feliz por assumir a Unidade, que em uma certa época havia trabalhado. Da bela sacada, do gabinete do comando, percebeu logo no primeiro dia, uma disparidade lógica, duas sentinelas tão próximas uma da outra, que não havia sentido naquilo. Chamou o capitão-tenente responsável pelas escalas, para conversar:

 

-Capitão, por que é que há duas sentinelas,  tão próximas uma da outra?

-Comandante… eu sempre me fiz essa pergunta, mas não sei lhe dizer o por quê. Vou chamar o sargenteante, que está aqui a mais tempo do que eu.

 

O sargento bate a porta e entra:

-Permissão o mais antigo! – pediu o sargento.

-Entre. – disse o capitão-de-fragata.

-Sargento, lembra que eu comentei sobre essas duas sentinelas tão perto uma da outra? Você sabe por que é assim? – perguntou o capitão-tenente

– Olha, desde que eu fui lotado aqui, há seis anos, que é desse jeito. Creio que tenha sido uma ordem de um almirante. Mas sinceramente, não vejo sentido mesmo não. Mas nunca me autorizaram tirar da escala, aí deixei ficar. – desabafou o sargento.

 

Nesse momento, o capitão-de-fragata, suspirou e em um tom, que ia do solene ao cômico disse:

-Nada disso, minha gente, isso aí, fui eu que ordenei há vinte e cinco anos, para vigiar o banco da praça, que havia sido pintado e a tinta ainda estava fresca. Deveria ter durado na máximo dois dias ou até a inspeção do almirante, na época.

 

Hoje, a sentinela ainda estava lá,esperando a mudança de escala do próximo mês, uma sentinela criada para vigiar a pintura do banco da praça, sendo que nem havia mais banco na praça.

Com essa história se tenta acalmar os ânimos de quem chega no meio militar, que por está ainda com a mentalidade de quem é de fora, percebe inúmeras contradições e não entende por que algo sabidamente errada ou ineficiente não é alterado.

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