Coleção Citações – Cecília Whitaker Bergamini

30 de abril de 2010

“É nesse sentido que a ausência de motivação, o doloroso conformismo das pessoas, chega até a ser incentivado em muitas circunstâncias,  e por vezes denominado de virtude. Não estar motivado a seguir direção alguma pode ser muito confortável para os outros,  mas nunca o é para o próprio indivíduo que, por isso, abdicou da alegria de estar vivo.” Cecília Whitaker Bergamini


Marginalização da juventude pela sociedade de consumo

28 de abril de 2010

Fui chamado a um ciclo de palestras sobre Economia e Vida, o enfoque foi as relações na sociedade capitalista. Para falar de Violência e a Sociedade de consumo, busquei algumas referências. Encontrei o texto do Dr. Maurício Daltro Costa, delegado de Polícia Civil da Bahia.

“Poxa!”, o cara tem uma consciência do drama social que não tem tamanho, digno de documentários como Notícias de uma guerra particular, suas percepções sobre o desarranjo social, as questões da estrutura familiar, do aliciamento de menores pelo crime organizado são um espelho do que acontece nos bastidores das instituições e das relações sociais.

Bem, deixo aqui o texto: Violência juvenil, resultado da marginalização da juventude pela sociedade de consumo.  Com os trechos que mais me marcaram em destaque:

Violência juvenil, resultado da marginalização da juventude pela sociedade de consumo

Mauricio Daltro Costa
Delegado da Policia Civil do Estado da Bahia
IntroduçãoA exposição das pessoas ao risco constante de ataques a sua integridade física e moral gera expectativas nas mesmas e, fornece-lhes padrões de respostas. Episódios truculentos e situações limites passam a ser imaginados e repetidos, como uma maneira de preparar o psiquismo para a idéia de que só a força resolve conflitos, tornando a violência um item obrigatório na visão do mundo que nos é transmitida. Cria-se a convicção tácita de que o crime e a brutalidade são inevitáveis, e que a pessoa deve estar preparada para eles e para reagir em conformidade. Esta familiarização com a violência, torna-a nosso cotidiano, um acontecimento corriqueiro, cuja proliferação indiscriminada mostra que as leis perderam o poder normativo e os meios legais de coerção, a força que deveriam ter e, nesta lacuna, vicejam, indivíduos e grupos que passam a arbitrar o que é justo ou injusto, segundo visões privadas, dissociadas de princípios éticos validos para todos. O crime é, assim, relativizado em seu valor de infração e os criminosos, ao invés de se sentirem marginais, agem com tranqüilidade, não se julgando fora da lei ou da moral, pois se conduzem de acordo com o que estipulam ser o preceito correto. Disseminam-se “sistemas morais” particularizados, que “legalizam” os atos praticados dentro da ótica moral e ética própria, podendo nelas uma atitude criminosa ser justificada e legitima.

Sabemos que não existe “moral relativa”, do ponto de vista de quem a professa, Crença ética é aquela que exige do sujeito uma posição quanto ao certo e ao errado e, no momento em que há duvida sobre o certo e o errado de certa ação, se está alterando os sistemas de crença. Ou seja, o justo e o injusto, o violento e o não violento, o humano e o desumano dispensam fundamentos racionais para determinar o modo como agimos e avaliamos nossas ações. Daí a dificuldade que enfrentamos quando tentamos convencer indivíduos adeptos da violência de que o recurso aos meios legítimos da justiça ainda é o melhor meio que temos de eliminar conflitos.

Em segundo lugar, a cultura da violência, valorizando a utilização da força, constrói uma nova hierarquia moral. O universo social simplifica-se monstruosamente entre fortes e fracos. Quem ocupa a posição de agressor é objeto de temor e ódio por parte da vitima e quem ocupa a posição de vitima é objeto de desprezo e indiferença por parte do agressor. Pouco importam as características físicas, psíquicas ou sociais dos sujeitos. Na montagem violenta o que conta é a força ou a fraqueza de quem ataca e de quem se defende. Nestas circunstancias os apelos humanitários caem no vazio. A lógica da brutalidade nivela por baixo os sentimentos. Termos como compaixão, consideração, culpa ou responsabilidade diante do semelhante desaparecem do vocabulário. A dificuldade de ultrapassar esse tipo de barreira emocional é uma das razões pelas quais se pode assassinar menores, desconsiderando o fato de que são crianças que estão sendo assassinadas.

Em terceiro lugar,na montagem social violenta perde-se pouco a pouco a noção do que é risco real ou potencial. A expectativa do perigo eminente faz com que as vitimas potenciais aceitem facilmente a sugestão ou a pratica da punição ou do extermínio preventivo dos supostos agressores potenciais. Todos se sentem vulneráveis, todos buscam atacar primeiro, todos vivem sob o temor da represália. O clima de insegurança e o vivido persecutório generalizam-se.

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Coleção Citações – David Bayley

27 de abril de 2010

“Se você quer saber se a sua polícia é boa, pergunte aos pais da sua comunidade se eles orientam seus filhos a procurarem um policial quando tiverem problemas na rua. Se a resposta for sim, então a polícia é justa.” David Bayley


Liderando a mudança

20 de abril de 2010

No mês passado, em março de 2010, encontrei alguns tesouros num lugar que eu sabia que existia, mas nunca tinha me interessado em vasculhar antes: as bibliotecas, ou salas de leitura, implantadas pela Senasp, nas unidades de ensino dos órgãos de segurança pública. Bem eu fui a que está localizada no prédio da Secretaria de Defesa Social, em uma das salas do telecentro. Posso afirmar categoricamente que são excelentes fontes para os profissionais da nossa área, que realmente gostam do que fazem e que não aceitam atuar sem uma base técnica, sem poder argumentar do porque do que fazem, de quais alternativas teríamos.

Bem, entre preciosidades encontrei livros como os de Eduardo Soares, a coleção do Núcleo de Estudos sobre a Violência da USP (Polícia e Sociedade), vários livros de Direito, Sociologia. Alguns que eu particularmente gosto: Gestão em Administração Pública.

Liderando a Mudança

Liderando a Mudança, John P. Kotter

Neste post, quero deixar aqui a sugestão de leitura, para o Liderando a Mudança de John P. Kotter, um excelente plano de oito passos de como conduzir o processo de mudança e altamente esclarecedor do porque dos fracassos, com exemplos de casos reais de várias empresas. É inevitável a identificação dos fatos apontados por Kotter com situações vivenciadas por nós mesmos em nossas relações de trabalho.

Abaixo seguem algumas citações de Kotter extraídas do livro Liderando a Mudança, da Editora Elsevier, sob o selo da renomada Campus:

“Os gerentes arrogantes podem superestimar seu próprio desempenho atual e posição competitiva, escutar muito pouco e aprender num ritmo muito lento. Os funcionários voltados para as necessidades internas podem ter dificuldade em enxergar as verdadeiras forças que apresentam ameaças e oportunidades. As culturas burocráticas podem reprimir aqueles que desejam responder às condições mutáveis. E a falta de liderança não mantém nenhuma força dentro dessas empresas capaz de superar o problema” (KOTTER, 1997, p. 28)

Esquema do sistema que mantém o status quo:

  • Gerentes com a falsa impressão de desempenho satisfatório;
  • Funcionários voltados a atender as exigências internas;
  • Burocracia que reprime iniciativas de resposta às mudanças externas;
  • Liderança esvaziada que não consegue romper as forças da inércia.

“nunca subestime a grandeza das forças que dão mais vigor à complacência e ajudam a manter o status quo” (KOTTER, 1997, p. 42) “[…] em seguida as poderosas forças ligadas à tradição assumem o controle da situação” (p.13)

Sobre os modelos de treinamento adotados até então: “A expectativa é de que as pessoas modifiquem seus hábitos adquiridos ao longo dos anos ou décadas com apenas cinco dias de treinamento. As pessoas aprendem habilidades técnicas, mas não as habilidades sociais ou atitudes necessárias para que a nova organização funcione. As pessoas freqüentam um curso antes de iniciarem suas novas funções, mas não há acompanhamento para auxiliá-los na solução dos problemas que encontrarem ao executar esses trabalhos” (KOTTER, 1997, p. 110)

“Fixar um novo conjunto de práticas em uma cultura já é difícil o bastante quando esses métodos são consistentes com o núcleo da cultura. Quando não são, o desafio pode ser muito maior” (KOTTER, 1997, p. 157)

Quando leio esse tipo de comentário, fico consciente que todos nós que fazemos segurança pública, temos grandes desafios pela frente, na implantação de doutrinas e novas filosofias de trabalho, principalmente quando elas exigem novo modo de proceder que não condiz com os valores já arraigados nas nossas Instituições. Ensinar técnicas corretas de abordagem e uso de armamento, apesar de está ligado positivamente aos valores cultuados nas polícias, recebe uma substancial resistência. (Ou você vai me dizer que por aí onde você trabalha ainda não tem quem fica se recusando a usar  o equipamento necessário, aquele momento da ocorrência em que se pergunta quem trouxe tal coisa: gás pimenta, luvas, lanterna – e você descobre que ninguém trouxe, nem você mesmo)

Agora imagine todo o desafio a ser enfrentado quando as mudanças pretendidas dizem respeito a temas que são negativamente percebidos pelos membros das Instituições tais como Polícia Comunitária e Direitos Humanos. Ou ainda movimentos que tentem deslocar os homens de suas zonas de conforto como o lavrar termo circunstanciado de ocorrência. Por que eu passaria a fazer novas coisas, mais coisas do que já faço?  O que ganho com isso? Esses e outros obstáculos, como gerentes intermediários que fingem lhe apoiar, mas estão ocultamente trabalhando pelo insucesso do projeto, comissões fracas que não representam as linhas-chaves táticas/operacionais , pessoas de ego inchado, falta de comunicação, promoções destoantes com os valores que se prega, inabilidade de trabalho em equipe – são obstáculos abordados por Kotter de uma maneira genial.

A leitura desse livro pode lhe servir de duas maneiras:

  1. Eu quero empreender a mudança, saiba o que será necessário para chegar até o fim, e não morrer na praia.
  2. Eu não consegui fazer a mudança, estou frustrado, preciso saber onde errei, mesmo que eu ache que não tenha mais força para tentar novamente. (Nesse caso pode servir como um poderoso livro de auto-ajuda e anti-depressivo na mente)