Variedades (2009 a 2007)

Caso Eloá (parte III)

O papel da Imprensa no Caso Eloá

Após os fatos, os holofotes, os furos de reportagem e a morte de Eloá, foi aberto espaço para discutir o papel da mídia na cobertura deste tipo de ocorrência policial: negociação com reféns. Até quanto podem ajudar para aliviar a pressão da curiosidade popular e até quanto podem prejudicar se tornando canal alternativo de convesação com o perpetrador. E os casos em que a TV exibe para o sequestrador ao vivo os passos da polícia?!

Bem, para ampliarmos o debate leiam a seguir o artigo de um jornalista pernambucano e um vídeio onde o apresentador do Dia-a-Dia da Record, Jr. Brito, comenta o caso:

O papel da mídia no caso Eloá está sendo discutido dentro de várias redes do movimento de comunicação no Brasil.

Disponibilizamos, aqui, um artigo de Nelson Hoineff.

Nelson Hoineff: quem matou Eloá?

A desastrada participação da mídia eletrônica no episódio do seqüestro de Santo André (SP) revela menos sobre o seqüestro do que sobre a própria mídia. O seqüestrador não tinha antecedentes e estava tomado pela emoção. Tornou-se um assassino pela sua inabilidade em lidar com uma situação circunstancial. A televisão, porém, essa incentivou – e provocou – o assassinato.

Por Nelson Hoineff, no Observatório da Imprensa
A mídia tinha inúmeros antecedentes — e estava movida pela cobiça. O
seqüestrador vai passar alguns anos numa penitenciária, apanhar
bastante, possivelmente ser estuprado e ser devolvido para a sociedade
inutilizado. A mídia, nesse período, já terá tirado proveito de várias
dezenas de casos semelhantes. Para os programas policialescos, o caso
de Santo André será na melhor das hipóteses lembrado como um número.
Um bom número que só interessa ao Comercial.

A impunidade de um tipo de ”jornalismo” (o nome vai entre aspas para preservar a dignidade da atividade) movido pela hipocrisia, pela estupidez e pela maldade só não é maior que o dinheiro que ele gera. No episódio de Santo André, a mídia (ou uma certa mídia) foi um agente
ativo dos acontecimentos.

O desfecho só foi possível pela ação direta da cobertura ao vivo da TV sobre o seqüestrador, pela sua capacidade em entronizá-lo como uma rápida celebridade midiática (não mais efêmera do que qualquer outra), de transtorná-lo, de amplificar uma ação criminosa pueril e deixar o seqüestrador sem opções. Tudo, enfim, o que já é conhecido por quem acompanhou o caso.

Não há dúvida possível sobre quem de fato matou a jovem de 15 anos. Para a mídia que matou a jovem não há punição e muito menos remorso. Já na manhã seguinte, as emissoras disputavam o privilégio de falar com a nova advogada do seqüestrador, uma pobre senhora já àquela altura deslumbrada com os holofotes, isca viva de repórteres e ”âncoras” à espera da carniça.

Quem saca primeiro
O mau jornalismo que se pratica em boa parte da televisão brasileira tem a perversa característica de não alimentar dúvidas do espectador sobre o que ele está vendo. Ele — que para as emissoras não é um indivíduo, mas um consumidor — dificilmente se dá conta das circunstâncias que levam à espetacularização do fato policial e do que isso representa para a sua banalização.

Os espectadores são levados a acompanhar o desfecho de um seqüestro da mesma forma como acompanham o grand finale de uma série de ficção, sem perceber que ambas estão sendo escritas da mesma maneira: a ficcional tendo como base o papel, a real como matéria-prima a manipulação dos sentimentos dos protagonistas — a audiência e os diretamente envolvidos nos acontecimentos. Uns como os outros, seres humanos. Na cobertura do dia-a-dia, helicópteros e holofotes acompanham ao vivo até as mais banais rixas de rua, e é um milagre que não as transformem todos os dias em crimes pesados. Isso acontece para gerar um ponto percentual de audiência, e para que isso aconteça os espectadores são induzidos a acreditar na relevância daquelas pequenas disputas.

A má televisão não hesitou um segundo em transformar um obscuro namorado abandonado de 22 anos numa celebridade instantânea, como se fosse um reality show com direitos gratuitos. A morte de uma menina e a destruição de famílias foram corolários espetaculares desse sucesso.

Está na hora das suítes, depois os especiais e as matérias requentadas, até que essa mesma televisão transforme outro infeliz no sucesso do momento — e o repórter que sacar primeiro um celular gere aquele 0,1% de audiência capaz de vender algumas caixas de iogurte a mais.

A propósito: como era mesmo o nome completo daquela menina que jogaram pela janela?

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