Veja o trabalho de negociadores do Gate(PM) e GRE(PC) em MG

Matéria publicada em 18/11/2007 no Jornal Estado de Minas

Negociadores da elite da polícia mineira trabalham com tensão e alto risco

Equipes atuam em situações de alto risco, como seqüestros com reféns e rebeliões

Thiago Herdy         Estado de Minas Domingo 18 de novembro de 2007 09:50

Paulo Filgueiras/EM

Criado há dois anos, o GRE, da Polícia Civil, passa por constante treinamento para lidar com crises

Eles são bem treinados, preparados para usar as armas mais modernas e prontos para agir rápido, quando necessário. Entretanto, em vez de empregar os armamentos e equipamentos de que dispõem, salvam vidas apenas conversando. São os negociadores, policiais especialmente capacitados para dialogar com criminosos que estão com reféns e também para atuar em casos de tentativas de suicídio e em outras situações em que a negociação é a única esperança de evitar mortes.

Na semana passada, um episódio mostrou para a população de Belo Horizonte a importância do trabalho desses policiais. Foi no Bairro Renascença, na Região Nordeste da capital, onde três pessoas de uma família, incluindo uma adolescente de 14 anos, foram feitas reféns de uma dupla de assaltantes. Enquanto a insegurança e o nervosismo imperavam entre aqueles que acompanhavam da rua o seqüestro, o capitão Danny Stochiero, líder da equipe de negociação do Grupamento de Ações Táticas Especiais (Gate), da Polícia Militar (PM), mantinha a calma e não alterava o tom de voz.

Ele era o único autorizado a conversar pela janela com os dois acusados, que mantinham uma arma apontada para a cabeça dos três reféns. Suas palavras caminhavam no fio da navalha, pois eram capazes de garantir a vida dos reféns ou de provocar uma tragédia. No fim, prevaleceram a serenidade e a técnica adquirida em anos de treinamento. Os reféns foram liberados e os dois criminosos entregaram as armas, sem ninguém se ferir.

gerenciamento_crise

Os policiais de Minas têm uma orientação clara sobre como agir em conflitos graves: trabalham para isolar o ambiente e congelar a situação, enquanto aguardam a chegada da equipe do Gate, de uniforme todo preto. Também pode chegar ao local o Grupo de Resposta Especial (GRE), time de elite da Polícia Civil, que veste uniforme camuflado de preto, azul e cinza. Fundada há dois anos, a equipe está disposta a atuar nas mesmas situações da tropa da PM. Os dois grupos vivem uma situação semelhante: na sede das duas unidades, policiais estão prontos para atuar em situações que envolvem personagens entre a vida e a morte.

O trabalho não é feito em conjunto. Uma resolução da polícia determina que é responsável pela ocorrência aquele que chega primeiro. Foi por isso que, no seqüestro do Bairro Renascença, a negociação ficou sob a responsabilidade do capitão Stochiero. Ele chegou antes do inspetor Júlio Monteiro de Castro, chefe do time tático do GRE.

Os líderes de cada grupo garantem que estão preparados para resolver rebeliões, seqüestros, ameaças de suicídio e outras situações extremas em qualquer cidade do estado. Ambos estão prontos para chegar de carro, avião ou helicóptero. O trunfo do Gate são quase 20 anos de experiência, “insubstituíveis”, nas palavras de Stochiero. Ele destaca a rigidez do processo seletivo para ser um dos 103 integrantes da tropa. Neste ano, conseguiram entrar na unidade apenas dois dos 15 policiais que se apresentaram. Júlio Monteiro, do GRE, garante que o treinamento intenso do seu grupo – composto por 24 operadores táticos de “absoluta confiança” – não deixa a unidade para trás.

Há muito mais em comum entre os grupos do que eles admitem. Ambos são integrados por policiais que se apresentam voluntariamente. São preparados para manter a calma em situação de estresse, têm idoneidade moral elevada, raciocínio rápido, condicionamento físico além da média e muita vontade de servir ao grupo de elite. O aparato tecnológico à disposição é o melhor da polícia. Os atiradores são capazes de acertar alvos a um quilômetro de distância. E tem mais: o toque do aparelho celular dos chefes das duas equipes de negociação toca o mesmo refrão: “Tropa de elite / osso duro de roer / pega um pega geral / também vai pegar você”. É a trilha sonora do polêmico filme sobre a tropa de elite do Rio de Janeiro, o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), ainda em cartaz em cinemas da cidade.

Estratégia sigilosa

Os dois grupos escondem a sete chaves as estratégias de negociação em situações de conflito, como a da última semana. Isso porque divulgá-las seria o mesmo que entregar o ouro ao bandido e prepará-lo para confrontos futuros. Ainda assim, dão pistas sobre a atuação. Júlio Monteiro, do GRE, conta que o grupo sob seu comando segue as doutrinas da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), baseadas na idéia de uso progressivo da força. Em situações de criminosos com reféns, o primeiro passo é a demonstração de força policial. A equipe tática se posiciona, o helicóptero sobrevoa baixo, se necessário são lançadas bombas de efeito moral. “O objetivo é gerar a certeza de que ninguém vai ficar impune”, explica o policial.

O segundo passo é a exigência de garantia de prova de vida do refém. “É a hora em que mostramos ao tomador que a vida dele depende da vida da pessoa sob a mira de sua arma”, afirma. Garantir o controle da situação na primeira hora da crise é fundamental. É o momento em que os ânimos estão acirrados, dos dois lados. “O local da ocorrência precisa ser estabilizado, neutralizado, para não reforçar o antagonismo entre polícia e bandido”, concorda Stochiero, do Gate. Quando os primeiros 60 minutos do conflito transcorrem sem incidentes, é sinal de que um final feliz pode estar um pouco mais perto.

Há situações em que Júlio Monteiro, do GRE, não assume a negociação. Nesse caso, o papel cabe ao seu parceiro e agente Antônio Otávio Rocha, especialista em criminologia. Ele tenta realizar um estudo psicológico do tomador de refém, para saber se é um esquizofrênico, um doente mental, um tomador eventual, que foge de outro crime, ou algum outro perfil.  À frente de Júlio, Otávio tenta criar situações que favoreçam o fenômeno da Síndrome de Estocolmo – estado psicológico desenvolvido em seqüestros, caracterizado por uma relação de afeto entre refém e criminoso. Um exemplo? Se durante a negociação fica acertado que reféns e bandidos receberão comida, a polícia oferece só um garfo. Quando pedem 5 litros de água, cedem uma garrafa de 500 ml. “A idéia é estimular a cooperação entre vítima e aqueles que a ameaçam”, explica. Paralelamente, uma equipe já planeja uma estratégia de invasão do local, uma espécie de plano B caso as negociações não dêem certo.

“Trabalhamos para resgatar a pessoa do plano emocional para o plano racional. Isso depende do estado do criminoso. É ele quem dita se vai ser preciso usar a força”, lembra Stochiero, do Gate. No episódio do Bairro Renascença, um integrante de sua equipe ficava ao seu lado, anotando em um bloco diversas informações úteis à negociação. A função era tentar saber sobre o que conversavam os seqüestradores. Se engatilhou a arma, se mudou de posição dentro da casa. “É um bom observador, que fica ligado em tudo o que acontece”, resume Stochiero.

Guerras urbanas

Policiais do GRE fazem estudos de casos passados, como o episódio do ônibus 174, ocorrido há sete anos no Rio de Janeiro, para conhecer as falhas e evitar mortes. Na ocasião, equipes de televisão e rádio noticiaram ao vivo a angústia de passageiros tomados reféns de Sandro Barbosa do Nascimento. Durante o seqüestro, o criminoso esteve por diversas vezes na mira dos policiais de elite do Rio. Mas a prioridade era não matá-lo. “Ele era perigoso, não havia sinais de que seria possível uma negociação bem-sucedida”, afirma Júlio. A ação terminou desastrosa, com refém e criminoso mortos.

Os dois grupos estão preparados para agir em verdadeiras guerras urbanas e, além do armamento, usar os recursos da tecnologia. As câmeras de vídeo tornaram-se aparatos tão importantes quanto os fuzis de última geração. Elas registram cada passo dos grupos. “É um canal de proteção jurídica, tanto para a polícia, como para refém e o tomador”, explica o inspetor Júlio Monteiro, do GRE. “O próximo passo será instalar câmeras ocultas na farda do policial”, antecipa o capitão Stochiero, do Gate.

Embora o grupo de elite da PM não mantenha uma relação muito estreita com a imprensa, o GRE pensa o contrário. Em determinados momentos das negociações chefiadas pelo grupo da Polícia Civil, equipes de jornal, rádio e televisão que acompanham os desdobramentos do conflito são chamadas a entrar no local e registrar a negociação. Se a situação é controlável, a presença da imprensa torna-se uma moeda de troca no conflito. Ela oferece ao criminoso a garantia de que ele não será morto arbitrariamente. “A equipe do GRE ganha confiança e um refém”, explica Júlio.

Anúncios

One Response to Veja o trabalho de negociadores do Gate(PM) e GRE(PC) em MG

  1. José Elson disse:

    para que o trabalho de gerênciamento de crise venha transcorrer a contento ,é preciso que o politico não atrapalhe os proficionais .com decisões muintas vezes de interesse politica,colocando em risco os profissionais e as vítimas ,como o própio causador do evento da crise porque para eles fica cômodo não assumir ,o que acontecer de errado,onde se tivesse feito o que deveria fazer talvez não chegasse a tal situação por investir sériamente em educação e o social,como mudar as leis superadas e o decadente sistema prisional brasileiro.

%d blogueiros gostam disto: